SEJA BEM VINDO

14/11/2017

Velho Testamento na Igreja do Novo Testamento


Padre Miguel Pomazanski
Traduzido por Tatiana Zyromski



Conteúdo:


Uma grande distância de séculos nos separa dos tempos em que foram escritos os primeiros livros do Velho Testamento. E não é fácil hoje se deixar transportar para aquele estado de alma e aquelas circunstâncias em que eram escritos estes livros inspirador por Deus e que são demonstrados por estes livros. Daí nascem as perplexidades, que perturbam a nossa mente. Estas perplexidades acontecem principalmente, quando queremos conciliar os pontos de vista científicos de hoje com a simplicidade de concepção do mundo nos tempos bíblicos. Também acontecem perguntas sobre até que ponto correspondem os conceitos do Velho Testamento aos conceitos do Novo Testamento. E muitos perguntam: Para que serve o Velho Testamento? Será que os ensinamentos e as Escrituras do Novo Testamento não são suficientes?
No que se refere aos inimigos do cristianismo, as investidas contra o cristianismo começam com as investidas contra o Velho Testamento. E o ateísmo militante atual acha que aquilo que está dito no Velho Testamento é o alvo mais fácil para esta finalidade. Aqueles que já passaram pelas dúvidas sobre religião, talvez até pela negação da fé, principalmente aqueles, que passaram pela propaganda anti-religiosa soviética, dizem que o primeiro obstáculo para a fé deles foi erguido nesta esfera.
Nesta curta resenha das Escrituras do Velho Testamento não há resposta para todas as perguntas que porventura aparecem, mas, achamos, que ela mostrará o caminho pelo qual será possível evitar más interpretações.

A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo era toda virada para a cidade celestial, procurando o futuro, porém ao mesmo tempo ela construía também o lado terrestre e em particular, guardava os valores materiais da fé. Isto eram, em primeiro lugar, as escrituras sobre a fé. O mais importante de todas as Escrituras eram os Evangelhos, como registros e testemunhas da vida terrestre e dos ensinamento do Nosso Senhor Jesus Cristo. Em seguida, eram as epístolas dos Apóstolos. Depois seguiram-se os livros sagrados dos judeus, as quais a Igreja guarda como as escrituras sagradas.
Por que as escrituras do Velho Testamento são tão importantes para a Igreja? Elas ensinam crer em um único e verdadeiro Deus e cumprir os mandamentos Dele e também se referem ao Salvador. O próprio Jesus Cristo disse aos escribas judeus: "Examinem as Escrituras, pois achais ter a vida eterna através delas, e elas testemunham sobre Mim." Na parábola sobre o rico avarento e o pobre Lázaro, Abraão diz o seguinte sobre os irmãos do rico: "Eles têm Moisés e os Profetas: que dêem ouvidos a estes." Moisés — isto são os cinco primeiros livros da Bíblia do Velho Testamento, e os profetas — os dezesseis últimos livros. Nosso Senhor disse ainda aos discípulos sobre o Saltério: "há de se cumprir tudo, o que foi dito sobre Mim na lei de Moisés, nos profetas e nos salmos." Após a ceia pascal, "Jesus saiu com seus discípulos cantando para o Monte das Oliveiras" disse apóstolo Mateus: isto indica que eles entoavam os salmos. As palavras do Salvador e Seu exemplo é suficiente para que a Igreja se refira aos livros acima mencionados com toda reverência — a lei de Moisés, os profetas e os salmos, para que ela os guardasse e os estudasse.
Entre os livros sagrados, admitidos pelos judeus, além do Pentateuco e dos Profetas, há ainda duas categorias distintas de livros: os livros de ensinamentos e livros históricos. A Igreja os aceitou porque assim estabeleceram os apóstolos. O apóstolo Paulo escreve ao Timóteo: "E desde a infância conheces as sagradas letras. Elas te podem dar a sabedoria que conduz à salvação por meio da fé no Cristo Jesus." Isto significa que, se leres estes livros com sabedoria, encontrarás neles o caminho para te firmar no cristianismo. O apóstolo se refere a todos os livros do Velho Testamento, como veremos nas seguintes palavras: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, convencer, corrigir e educar na justiça" (Segundo os mandamentos do Salvador e dos Apóstolos; 2 Timóteo 3:15-16).
A Igreja aceitou os livros sagrados judeus na sua tradução para o grego dos 72 tradutores, que foi feito bem antes do nascimento de Jesus Cristo. Os apóstolos também usavam esta tradução e suas epístolas eram escritas em grego. Entre estes livros se encontram também livros sagrados de procedência judia, que eram conhecidos em grego, pois eram escritos após a lista estabelecida pela Grande Sinagoga. Na Igreja Cristã estes livros são conhecidos como livros não canônicos. Os hebreus não usam estes livros para fins religiosos.
Ao aceitar as Escrituras Sagradas do Velho Testamento a Igreja mostrou que ela é herdeira da Antiga Igreja extinta: não da nacionalidade judia, mas do conteúdo religioso do Velho Testamento. Nesta herança, umas coisas têm valores eternos, outras coisas já se extinguiram e têm valor exclusivamente como lembrança e ensinamento, como por exemplo o estatuto do templo, das oferendas, e vida cotidiana dos judeus. Por isso e Igreja administra esta herança do Velho Testamento com toda independência, conforme a concepção mais ampla e elevada.

Mesmo admitindo todas as virtudes dos livros do Velho Testamento, a Igreja cristã praticamente não tinha possibilidade de usa-las todas, sempre e em todo lugar. Isto já dá para perceber, porque estes livros são muito numerosos e na Bíblia ocupam o lugar quatro vezes maior do que os livros do Novo Testamento. Enquanto os livros eram copiados manualmente, isto é, durante 1500 anos da história da Igreja, tais manuscritos eram raros e foi muito difícil de obte-los. Nem toda comunidade poderia se dar o luxo de ter todos eles, e muito menos eles podiam ser encontrados numa família. Logicamente, como uma fonte de instrução, como um manual da vida cristã, eram usados livros do Novo Testamento. Somente o Saltério é usado pela Igreja constantemente na sua integridade, nas missas e na vida cotidiana dos cristãos. Isto vem do tempo dos apóstolos e assim será até o final do mundo. No que se refere à outros livros, de alguns deles são usados trechos. Sobre a Igreja Russa em particular sabemos, que ela resplandecia plenamente já nos séculos 12-13, antes mesmo do jugo tártaro, mas mesmo lá não havia tradução de todos os livros do Velho Testamento, mas somente de alguns, os mais importantes. Somente no final do séculos XV o arcebispo Guennadi de Novgorod, com grandes dificuldades, conseguiu reunir todas as traduções dos livros do Velho Testamento, feitas para a língua eslava. E esta aquisição pertencia somente à uma cátedra de Novgorod. Somente o começo da arte de imprimir os livros nos deu a primeira completa Bíblia: esta era a Bíblia de Ostrog, em língua eslava, imprimida no século XVI. Porém, na prática, o uso dos livros do Velho Testamento ficou tão restrito como era nos primeiros séculos da Igreja.

De acordo com o livro dos Atos dos Apóstolos, o apóstolo Felipe encontrou no caminho dele o eunuco da rainha de Kandaquia, que estava segurando na mão o livro do profeta Isaías. Ele perguntou ao eunuco: "Compreendes o que estás lendo?" O eunuco respondeu: "Como posso compreender, se ninguém me esclareceu?" O apóstolo Felipe lhe esclareceu a compreensão cristã a tal ponto, que logo em seguida, nas águas que estavam perto da estrada, se deu o batismo do eunuco. O apóstolo lhe esclareceu o livro de acordo com os ensinamentos cristãos. Assim também nós, tendo como ponto de partida o ensinamento cristão, devemos ler os livros do Velho Testamento. O Velho Testamento precisa ser iluminado pela compreensão irradiada pelo Novo Testamento, que emana da Igreja. Para tanto, a Igreja nos dá os ensinamentos dos doutores da Igreja, para melhor compreender o conteúdo destes livros. Devemos lembrar, que o Velho Testamento "é a sombra dos bens vindouros." De outra forma, o apóstolo Paulo adverte, que o leitor não pode receber a compreensão, do que está lendo. Ele escreve sobre os judeus: "Quando, porém, convertem-se ao Senhor, será tirado o véu" (2 Cor. 3:15-16). Assim, nos também devemos ler estes livros sob o ponto de vista cristão, lembrando-nos das palavras do Nosso Senhor: "Eles testemunham sobre Mim." Estes livros precisam ser não só lidos, mas também investigados. Lá estão incluídas as preparações para a vinda do Messias, promessas, profecias, protótipos e sinais sobre Cristo.
Também as leituras do Velho Testamento para as missas estão escolhidas segundo este mesmo princípio. E se a Igreja nos oferece ensinamentos morais, ela os escolhe de acordo com os ensinamentos do Evangelho, aqueles que, por exemplo, falam sobre "a vida eterna" dos justos, sobre "justiça de acordo com a fé," sobre a bem-aventurança. Este uso dos livros do Velho Testamento dá aos nós, cristãos, um enorme tesouro de ensinamentos. Assim como as gotas de orvalho refletem o sol, assim estas Escrituras refletem aquilo que deverá acontecer no futuro — fatos, atos e ensinamentos do Evangelho. Mas quando o sol se põe, as gotas permanecem as mesmas, porém já nos alegram mais. Isto mesmo sucede com as Escrituras do Velho Testamento. Sem o sol do Evangelho, elas se tornam antiquadas, assim como disse o apóstolo Paulo (Hebreus 8:13), como os denominou a Igreja: "Assim falando da Aliança, ab-rogou a Antiga. E o que é antiquado e envelhecido está prestes a desaparecer." O reino do povo eleito terminou, chegou o Reino de Cristo: "as leis e os profetas até João: desde esta época o Reino de Deus é anunciado."

Os hinos e as leituras da Igreja nos revelam dois tipos de acontecimentos: O Velho Testamento, como um protótipo, como uma sombra, e o Novo Testamento, como um exemplo, a verdade, como uma aquisição. Nas missas nos vemos uma constante comparação: Adão — e Cristo, Eva — e a Mãe de Deus. Lá — o paraíso terrestre, aqui — o paraíso celeste. Através da mulher veio o pecado, através da Virgem — a salvação. Lá comer a fruta trouxe a morte, aqui a Comunhão dá vida. Lá a árvore proibida, aqui a Cruz da salvação. Lá foi dito: morrerás, aqui — hoje estarás comigo no paraíso. Lá a serpente tentadora, aqui — o arcanjo Gabriel, que traz a anunciação. Lá foi dito à mulher: serás triste, aqui, no sepulcro — alegrem-se. Durante todos os dois Testamentos vemos estes paralelos. A salvação do dilúvio — na arca, a salvação — na Igreja. Três peregrinos visitam Abraão — e a verdade evangélica da Trindade. A escada que Jacó viu em sonho — e a Mãe de Deus, a escada da descida do Filho de Deus para a terra. A venda de José por seus irmãos — e a traição de Cristo por Judas. A escravidão no Egito — e a escravidão espiritual do diabo. O êxodo do Egito — e a salvação em Cristo. O arbusto que queimava sem ser consumido — e a sempre virgindade da Mãe de Deus. Sábado — domingo (ressurreição). O ritual de circuncisão — e o mistério de Batismo. Maná — e a Última Ceia de Cristo. A lei de Moisés — e a lei do Evangelho. Sinai — e o Monte da Bem-aventurança. O templo — e a Igreja do Novo Testamento. A Arca — e a Mãe de Deus. A serpente na haste — e a crucificação por Cristo dos nossos pecados. O cajado de Aarão que floresceu — e o renascimento em Cristo. Tais contraposições podem continuar e continuar.
A compreensão do Novo Testamento, expressa nos hinos, aprofunda o sentido dos acontecimentos no Velho Testamento. Com que força Moisés dividiu o mar? — Com o sinal da Cruz: "Traçando a Cruz, Moisés cortou com o bastão, diante de si, o Mar Vermelho." Quem conduziu os israelitas através do Mar Vermelho? — Cristo: "O cavalo e o cavalheiro no Mar Vermelho... Cristo lançou, salvando Israel."Que protótipo era esta incessante corrente do mar após a passagem de Israel? — O protótipo da eterna pureza da Mãe de Deus: "No Mar Vermelho foi imprimida a imagem da Noiva Não Desposada..."
Na Quinta semana da Grande Quaresma rezamos na Igreja o maravilhoso Grande Cânone do santo André de Creta. Como uma longa corrente ouvimos os exemplos de justiça e dos pecados durante o Velho Testamento, que depois se substituem por exemplos do Novo Testamento. Mas, somente conhecendo o Velho Testamento podemos nos compreender o conteúdo do grande cânone e nos enriquecer com os seus ensinamentos.
Eis porque todos, e não só os adultos, devem conhecer o Velho Testamento; dando aulas do Velho Testamento aos nossos filhos, nos os preparamos para uma participação consciente e para a compreensão das nossas missas. Mas ainda tem uma coisa mais importante. Nas palavras do Salvador, bem como nas escrituras dos Apóstolos, há muitas referências a pessoas e acontecimentos do Velho Testamento: Moisés, Elias, Jonas, às profecias do profeta Isaias, etc.
No Velho Testamento foram dadas as causas, porque era necessária a vinda do Salvador para a salvação da humanidade.
Não podemos deixar fora o ensinamento direto. O apóstolo Paulo diz:
"Que direi ainda? Faltar-me-ia o tempo, caso eu quisesse falar sobre Gedeão, Barac, Sansão, Jefté, Davi, Samuel e os profetas. Homens que pela fé conquistaram reinos, taparam a boca dos leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam do fio da espada, convalesceram das suas enfermidades, mostraram-se valorosos na guerra e afugentaram exércitos estrangeiros. Mulheres houve que viram recobrados os seus mortos pela ressurreição. Uns sofreram torturas, recusando a libertação, para assim alcançar um bem melhor, a ressurreição. Outros sofreram ludíbrios, açoites e, além disso, cadeias e prisões. Foram apedrejados, torturados, serrados, passados ao fio da espada, andaram ao acaso, vestidos com peles de ovelhas e de cabras, necessitados, oprimidos, maltratados, vagueando por desertos, montes, cavernas e antros, dos quais o mundo não era digno" (Hebreus 11:32-38).
Nos também usamos este ensinamento. A Igreja nos lembra constantemente dos três jovens no forno de Babilônia.

Na igreja, tudo fica no seu devido lugar, tudo é corretamente explicado. Isto se refere também às Escrituras do Velho Testamento. Conhecemos de cor os dez mandamentos do legislador, que os recebeu no monte Sinai, mas temos uma maior profundidade na sua compreensão, do que os judeus, porque os mandamentos são iluminados com a luz do Sermão da Montanha do Nosso Senhor, da bem-aventurança. Na legislação de Moisés há muitas leis que se referem a rituais e a moral, mas há lá também o sublime chamamento: "Ame a teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma, e com todo o seu pensamento, e ame ao teu próximo assim, como a si mesmo" — estas palavras resplandeceram para nos somente através do Evangelho. O templo de Salomão não existe mais: mas nos ainda aprendemos como era constituído, porque nele existem muitos símbolos do Novo Testamento. As velhas profecias são lidas na Igreja, porque há nelas profecias sobre Cristo e sobre os acontecimentos descritos no Evangelho, e não para conhecer a história dos povos antigos da Palestina.
Mas aconteceu, que no século XVI uma grande parte de cristãos renegou a orientação da Igreja, se desligou de toda a riqueza da Igreja Antiga, e ficou tão somente com as Escrituras — a Bíblia, em suas duas partes — o Velho e o Novo Testamentos. Isto fizeram os protestantes. Vamos falar a verdade: eles procuravam a palavra viva de Deus e apaixonaram-se pela Bíblia. Mas eles não compreenderam, que as Escrituras foram juntadas pela Igreja e pertencem a ela na sua histórica e apostólica continuidade. Eles não tomaram em conta que assim como a fé da Igreja é iluminada pela Bíblia, assim, por seu turno, a Bíblia é iluminada pela Igreja. Uma coisa precisa da outra e uma se apoia noutra. Os protestantes se concentraram unicamente no estudo da Escritura Sagrada na esperança de que, seguindo-a ao pé da letra, eles verão o caminho tão distinto, que não haverá mais lugar para divergências na fé. A Bíblia, onde três quartos consistem do Velho Testamento, virou para eles o livro de cabeçalho. Eles estudaram a Bíblia até os seus mínimos detalhes, conferiram pelos textos hebreus, mas com isto perderam a correlação entre os valores do Velho e do Novo Testamento. Eles acharam, que estas são as duas fontes da mesma fé, onde uma fonte completa a outra, como dois lados iguais. Alguns dos protestantes até acharam, que uma vez que existem mais livros do Velho Testamento do que do Novo, este é predominante. Assim apareceram seitas com tendência para judaísmo. Eles começaram colocar a fé em Deus Único do Velho Testamento acima do monoteísmo do Novo Testamento com o seu ensinamento sobre o Único Deus na Sua Santíssima Trindade; eles acham os mandamentos do monte Sinai mais importantes, que os ensinamentos do Evangelho; o sábado acima do domingo (ressurreição).
Os outros, mesmo que não seguiram o caminho do judaísmo, não souberam distinguir o espírito do Velho Testamento do Novo, o espírito da servidão da filiação, do espírito da lei da liberdade. Sob a influência de alguns textos nas Escrituras do Velho Testamento, eles se recusaram a aceitar a plenitude de adoração de Deus, aquela que faz parte da Igreja cristã. Eles se recusaram a aceitar as formas externas da adoração espiritual-corporal, e em particular eliminaram o símbolo cristão — a cruz e outras representações sacras. Com isto, eles foram condenados pelo apóstolo: "Tu que abominas os ídolos e despojas sacrilegamente o Templo!" (Romanos 2:22)
Os terceiros, perturbados pela simplicidade dos antigos relatos, ou talvez pelo caráter rigoroso da antigüidade, que é particularmente visível nas guerras, no nacionalismo judaico ou outros traços da época pre-cristã, começaram a referir-se com bastante crítica a restes relatos, e mais tarde, à própria Bíblia em si.
Assim como não podemos subsistir com o pão sem água, apesar de que o pão é essencial para o organismo, assim não podemos aceitar as Escrituras Sagradas sem a benéfica influencia, que nos proporciona a vida da Igreja. As faculdades teológicas protestantes, que foram predestinados a guardar o cristianismo e suas fontes, ao estudar a Bíblia, ficaram até um certo ponto enfadonhos. No seu fervor de análise crítico dos textos do Velho e do Novo Testamentos, eles aos poucos deixaram de sentir a sua força espiritual, e começaram a encarar os livros sagrados como simples documentos da antigüidade valendo-se do positivismo do século XIX. Alguns destes teólogos começaram a rivalizar entre si, inventando teorias de origem de vários livros, e isto tudo apesar da sagrada tradição. Para explicar os fatos de várias profecias dos futuros acontecimentos, eles começaram a datar estes livros com datas posteriores a estes acontecimentos. Este método minou a autoridade das Escrituras Sagradas e da própria fé cristã. A verdade seja dita, que os simples seguidores do protestantismo, parcialmente até hoje, ignoraram e ignoram esta chamada crítica bíblica. Mas, como os pastores estudavam nestas escolas teológicas, eles muitas vezes se tornavam condutores deste pensamento dentro de suas comunidades. O período da crítica bíblica diminuiu, mas isto trouxe a perda da fé dogmática em muitas seitas. Eles começaram a aceitar somente os ensinamentos do caráter moral, esquecendo-se de que tais ensinamentos não podem existir sem os ensinamentos dogmáticos.
Porém, muitas vezes até boas iniciativas têm seus lados negativos.
Assim, a tradução da Bíblia para todas as línguas contemporâneas significou muito para a cultura cristã. Uma grande parte desta tarefa foi cumprida pelo protestantismo. Porém, as línguas contemporâneas dificilmente conseguem mostrar a grande antigüidade e nem todos conseguem compreender e valorizar a simplicidade dos velhos relatos bíblicos. Não é atoa que os judeus guardam com grande zelo a língua antiga das suas Escrituras, nas sinagogas e nas orações evitam Bíblia impressa e usam exemplares de pergaminhos do Velho Testamento.
A Bíblia foi difundida em todo o mundo em milhões de tiragens, mas será que não diminuiu a atitude piedosa nas massas? Isto se refere a atividade interna do cristianismo.
Apareceram novas circunstancias externas. Bíblia é confrontada com dados geológicos, paleontológicos e arqueológicos. Das entranhas da terra surgiu um novo mundo do passado, até agora desconhecido e que na ciência é datado com milhares e milhares de anos. Os inimigos da Bíblia logo usaram isto contra a própria Bíblia. Ela foi levada ao tribunal com estas palavras de Pilatos: "Ouve de quantas coisas te acusam!"
Nestas condições precisamos crer na santidade da Bíblia, na sua verdade, nos seus valores, na sua magnitude, como o livro dos livros, o verdadeiro livro da humanidade. Nos precisamos nós mesmos nos guardar de perturbação. As Escrituras do Velho Testamento entram em contato com as teorias da ciência moderna. Por isso, vejamos as Escrituras do Velho Testamento em sua essência. No que diz respeito à ciência, então a verdadeira ciência, objetiva e imparcial, ela própria, nas suas deduções será testemunha da verdade da Bíblia. O padre são João de Kronstadt diz: "Quando começas duvidar de algum personagem ou algum acontecimento, descrito nas Escrituras Sagradas, lembra-te de que ‘as Escrituras foram inspiradas por Deus,’" como diz o Apóstolo, isto quer dizer, que é verdadeiro, que lá não existem personagens ou acontecimentos fictícios, e apesar de que lá há parábolas, lá não há contos fictícios, que são fáceis de perceber. Toda a palavra de Deus é uma única verdade, completa e indivisível e se você achar que um único acontecimento, uma única palavra, é mentira, você peca contra toda a verdade de todas as Escrituras Sagradas, e o começo da verdade é o próprio Deus."
Na nossa língua russa, bem como na língua eslava, geralmente referimo-nos às Escrituras como "sagradas," o que significa que têm a bem-aventurança, que são a emanação do Espírito Santo. Somente o Evangelho é denominado de "santo" e antes de ouvi-lo pedimos faze-lo dignamente: "E pedimos ao Senhor Deus que sejamos dignos de ouvir o santo Evangelho." Nos temos obrigação de ouvi-lo de pé: "De pé ouviremos a leitura de santo Evangelho." No entanto, durante a leitura das Escrituras do Velho Testamento ("paremias"), se ela não for lida como uma oração, mas tão somente para ensinamentos, a Igreja permite ouvi-las sentadas. As palavras do apóstolo Paulo, que "as estrelas são diferentes na sua gloria," podem ser atribuídas aos livros sagrados. Todas as Escrituras foram inspiradas por Deus, porém o seu conteúdo os faz diferentes, lá — judeus e a lei do Velho Testamento, aqui — o Novo Testamento com o próprio Salvador Jesus Cristo e Seu Divino ensinamento.
O que faz as Escrituras inspiradas por Deus? Os escritores sagrados eram guiados e em momentos culminantes iluminados por Deus. "Foi-me revelado por Deus" — dizem os profetas, os apóstolos Paulo e João (no Apocalipse). Mas mesmo assim, os autores se valem de costumeiros meios de conhecimento. Falando sobre o passado, eles usam as tradições orais. "Ouvimos com os nossos ouvidos, ó Deus e nossos pais nos contaram o que operaste nos seus dias, nos tempos de outrora..." "Quanto ouvimos e conhecemos, quanto nos narraram os nossos pais, não o ocultaremos a seus filhos, mas à nova geração o contaremos, os feitos gloriosos de Javé, Seu poder e as maravilhas que fez" (Salmo 43[44]:1, Salmo 77[78]:2-3). O apóstolo Lucas que não fazia parte dos doze discípulos de Cristo, descreve os acontecimentos "também a mim, pareceu-me bem, tendo investigado tudo diligentemente desde o princípio, escrever-te em ordem" (Lucas 1:3). Depois, os autores sagrados usam documentos escritos, relações de homens e suas famílias, relatórios oficiais com diversas indicações, como por exemplo nos livros dos Reis e do Paralipomenon "o restante sobre Ocosia... está escrito nos anais dos Reis Israelitas," "o restante sobre Ioafam... nos anais dos reis judeus." Também lá achamos os documentos verdadeiros, como no primeiro livro de Ezdra, onde há bastante ordens e relatórios textuais, ligados à reconstrução do templo de Jerusalém.
Os autores sagrados não eram donos de onisciência, a qual pertence exclusivamente a Deus. Mas eles eram santos. "Os filhos de Israel não podiam fitar o rosto de Moisés por causa do esplendor do seu semblante, que fora transitório" (2 Coríntios 3:7) Esta sua santidade, a pureza de sua mente, a pureza do seu coração, o reconhecimento da altura e responsabilidade de sua vocação está impressa nas suas escrituras: na verdade de seus pensamentos, na verdade de suas palavras, na exata diferenciação entre a verdade e a mentira. Eles começavam as suas escritas sob a inspiração superior e as cumpriram. As vezes o espírito deles era iluminado por revelações e misteriosas penetrações no passado, como no livro de Gênesis do profeta Moisés, ou no futuro, como nos profetas posteriores e nos apóstolos de Cristo. Isto lhes era revelado como através de uma cortina. "Agora vemos por espelho, de maneira confusa, mas então será face a face. Agora conheço de modo imperfeito, mas então conhecerei como sou conhecido" (1 Coríntios 13:12).
Tanto referindo-se ao passado, como ao futuro, nesta clarividência o tempo não é computado — os profetas vêem "longínquo como o que está perto." Por isso, os evangelistas retratam dois acontecimentos futuros: a devastação de Jerusalém e o fim do mundo, ambos preditos pelo Nosso Senhor, da forma que estes acontecimentos quase se fundem numa só perspectiva do futuro. "Não vos compete saber o tempo e o momento que o Pai fixou por sua própria autoridade" disse o Senhor (Atos 1:7).
A inspiração por Deus pertence tanto às Escrituras Sagradas, como à Tradição Sagrada. A Igreja as reconhece ambas como fontes igualmente fidedignas, porque aquela tradição, que reflete a voz de toda a Igreja, é também a voz do Espírito Santo, que mora na Igreja. Da mesma forma, todas as nossas missas são inspiradas por Deus, como é dito numa das orações: "Reverenciaremos os testemunhas da verdade e os pregadores da devoção em nossas orações." A Liturgia dos Santos Mistérios, que também é chamada de "Liturgia Divina," é particularmente inspirada por Deus.

No livro de Gênesis, a criação do mundo está em primeiro lugar. Moisés, que viu Deus, conta sobre a criação do mundo numa maneira bem concisa. Toda a sua narração cabe numa página só. Mas, junto com isto, ele abraçou tudo com um único olhar. Nesta brevidade há muita sabedoria, pois qual grandiloqüência poderia abranger todas as grandes obras de Deus? Na realidade, esta página é por si só um livro completo, e foi necessária uma grande enlevação de espírito e inspiração do céu para escreve-la. E não é atoa que Moisés termina o relato sobre a criação com as seguintes palavras, como se terminasse a sua obra inteira: "Tal foi a história do céu e da terra ao serem criados, no dia em que Javé fez a terra e o céu."
Esta era uma enorme tarefa — falar sobre a criação do mundo e de tudo que está no mundo. Esta tarefa requeria uma grande variedade de expressões, de um dicionário técnico e filosófico. Mas, o que tinha Moisés? Ele tinha uma língua quase primitiva com algumas centenas de palavras. Lá quase não existiam palavras abstratas, que hoje nos facilitam tanto a expressão de nossos pensamentos. O pensamento antigo consiste de imagens e todas as palavras transmitem aquilo que é visto ou ouvido. Mas Moisés tem um enorme cuidado no uso das palavras do seu tempo, para não mergulhar o pensamento sobre Deus em imagens puramente terrestres. Ele precisa dizer: "Deus fez, Deus pegou, Deus viu, Deus disse — e até Deus andou." Mas as primeiras palavras de Gênesis: "No começo Deus criou" e mais adiante "o Espírito de Deus pairava sobre as águas" já nos falam claramente sobre o Deus Espírito Santo, mostrando a metáfora das expressões humanas. No Saltério, que é um livro posterior, esta metáfora está sendo largamente usada, e ainda com maior clareza: no Saltério nos lemos sobre a face de Deus, sobre as mãos, os olhos, os pés, os ombros, o ventre. "Levanta, tira a Tua espada..." clama Davi a Deus. São João Crisóstomo, nas suas palestras sobre o livro de Gênesis, a respeito das palavras: "escutaram o rumor dos passos de Javé Deus que passeava no Jardim à hora da brisa do dia," nos diz:
"Meus queridos, não passaremos sem a devida atenção por aquilo que foi dito nas Escrituras Sagradas, e não nos deteremos nas palavras, mas refletiremos, que palavras tão simples são usadas por causa da nossa fragilidade, e tudo é feito de maneira adequada para a nossa salvação. Pois, me diga, se quisermos entender as palavras no seu sentido exato, e não no seu sentido de inspiração por Deus, será que muitas coisas não nos parecerão estranhas? Vejamos bem o começo da nossa leitura. — "Escutaram o rumor dos passos de Javé Deus que passeava no Jardim à hora da brisa do dia e tiveram medo." O que dizes? Deus passeia? Será que vamos muni-lo de pernas? Não subentenderemos nada mais elevado? Não, Deus não anda — não! Como seria possível que Aquele, Que se encontra em todo lugar, Cujo Trono é o céu e o pedestal de Seus pés é a terra, anda pelo jardim de Éden? Que pessoa de insensata poderia dizer isto? O que significa: ouviu a voz de Deus que passeava pelo jardim à hora da brisa do dia? Ele queria excitar neles o sentimento de Sua proximidade, para que eles sentissem uma intranqüilidade, o que realmente aconteceu: eles sentiram isto e tentaram se esconder de Deus, que estava se aproximando. Aconteceu o pecado — o crime, e eles sentiram medo, eles sentiram vergonha. O juiz imparcial — a sua consciência — se elevou, clamando em voz alta, lhes acusava, lhes mostrava diante de seus olhos como era grande o crime. O Senhor no começo criou o homem e lhe deu a consciência, como um incessante acusador, que não pode ser iludido ou enganado..."
Na nossa época de pesquisas e descobertas geológicas, paleontológicas e outras, o mundo antigo nos parece muito antigo no tempo; o aparecimento do homem é cotado por muitos e muitos míticos milênios; a ciência que trata da criação do mundo anda pelo seu próprio caminho. Mas nos não precisamos tentar conciliar os relatos da Bíblia com a ciência de hoje em todos os seus aspectos. Não precisamos nos aprofundar na geologia e paleontologia por causa da Bíblia. Nos estamos certos, de que no fim os dados da Bíblia e os dados da ciência não cairão em contradição, mesmo se, nos dias de hoje, a sua coincidência não é muito clara para nós. Em alguns casos, os dados da ciência nos poderão mostrar como devemos compreender os dados da Bíblia. Alguns aspectos destas duas fontes são incomparáveis, pois têm diferentes finalidades, são até contraditórias na sua concepção do mundo.
A tarefa de Moisés não consistia em estudo do mundo físico. Porém, convém dizer e agradecer a Moisés que ele deu à humanidade a primeira e elementar história da criação do mundo; que ele foi o primeiro a dar-nos a história do homem primitivo; que, enfim, no livro de Gênesis ele deu o início à história dos povos; tudo isto mostra a sua magnitude. A criação do mundo, o passado do mundo inteiro são nos dados numa só página da Bíblia; este relato conciso já, por si só, nos mostra porque ele não se aprofundou no grande abismo do passado e antes nos mostrou tudo como numa superfície plana., como num quadro geral.
Mas a finalidade deste relato de Moisés — através do narração da criação — era incutir ao seu povo, bem como aos outros povos, as básicas verdades religiosas.
A verdade principal é sobre Deus, como o Ser Uno Espiritual, que não depende do mundo. Esta verdade foi guardada naquele ramo da humanidade, que nos capítulos 5 e 6 da Bíblia é chamada de "filhos de Deus," a fé em Deus Único foi transmitida por eles ao Abraão e seus descendentes. No tempo de Moisés, os outros povos já perderam esta fé há muito tempo. Ela foi ofuscada até no povo de Israel, que estava rodeado por povos com politeísmo, e durante a escravidão no Egito já começou a se apagar. A grandeza do Deus-Espírito Único foi revelada a Moisés ante a sarja que ardia sem ser consumida, quando ele perguntava perplexo: "Eis que eu irei aos filhos de Israel e dir-lhes-ei: O Deus de vossos pais enviou-me a vós; se eles me perguntarem: Qual é o Seu nome? Que lhes hei de responder?" Daí, numa voz misteriosa, Moisés ouviu o nome do Próprio Criador do mundo: "Eu Sou Aquele Que Sou! Assim dirás aos filhos de Israel: Aquele Que me disse ‘Eu Sou’ enviou-me a vós." Esta sublime apresentação de Deus foi dita por Moisés com as primeiras palavras do livro de Gênesis: "No começo Deus criou o céu e a terra." Quando ainda não existia nada material, já existia o Único Deus Espírito, Que é fora do tempo, fora do espaço, Cuja existência não é ligada ao céu, pois o céu foi criado junto com o tempo e junto com a terra. Na primeira linha do livro de Gênesis está escrita a palavra "Deus," sem qualquer explicação ou determinação ou delimitação, pois a única coisa que pode ser dita sobre Deus é que Ele é, que Ele é existência única, verdadeira, Fonte de toda existência, que Ele É Aquele Que É.
Esta verdade está ligada a várias outras verdades sobre Deus, sobre o mundo, sobre o homem, que emanam da narração sobre a criação, a saber:
  • Deus não deu nada de Si, nada perdeu, nada recebeu para Si mesmo com a criação do mundo

  • Deus criou o mundo por Sua livre vontade, pois Ele não tinha necessidade disto

  • O mundo como tal não tem a natureza divina, ele não nasceu de Deus, ele não é nenhuma parte de Deus, ele não é o corpo de Deus

  • O mundo é o espelho da sabedoria, da força e da benevolência de Deus

  • Na criação do mundo "tudo assim era bom": o mundo na sua integridade é harmônico, maravilhoso, constituído de uma maneira sábia e boa

  • O homem é uma criatura terrestre, criado a partir da terra e destinado a ser o auge de todos os seres criados

  • O homem é criado segundo a imagem de Deus e tem em si o sopro da vida de Deus
A conclusão de todas estas verdades é lógica: o homem é obrigado a aspirar a pureza e altura moral, para não sujar e perder a imagem de Deus e para ser digno de encabeçar toda a criação terrestre.
Naturalmente, com a revelação da criação do mundo foram banidos das cabeças do povo hebreus todos os relatos sobre os muitos deuses e deusas, que o circundavam, os quais: a) eles mesmos dependem da existência do mundo e na realidade não podem fazer nada, b) eles mesmos são cheios de fraquezas, paixões, inimizade e são eles os portadores do mal moral, e por isso c) mesmo se existissem, seriam incapazes de elevar moralmente os homens. A história da criação do mundo, tendo o seu próprio valor da verdade inspirada por Deus, ainda desfecha um golpe sobre religiões pagãs, politeístas e mitológicas.
O livro de Sabedoria do Rei Salomão nos mostra como era a concepção de Deus no Velho Testamento: "O mundo inteiro diante de Ti é grão de pó na balança, gota de orvalho matinal sobre o chão"(Sabedoria 11:22).
O livro de Gênesis professa o monoteísmo puro e imaculado. Mas o cristianismo revela nesta narração do Velho Testamento uma grande verdade: a verdade da unidade da existência e a trindade de Hypóstasis, quando lemos: "Façamos o homem à Nossa imagem... Eis que o homem se tornou como um de Nós"; mais tarde, Deus apareceu ao Abraão nas figuras de três Peregrinos.
Este é o sentido desta curta narração. Se todo livro de Gênesis consistisse somente desta primeira página sobre o mundo e a humanidade, mesmo assim ele seria um grande livro, a magnífica expressão da revelação Divina, da iluminação Divina do raciocínio do homem.

O segundo e o terceiro capítulo de Gênesis abrem outro tema, começam, por assim dizer, outro livro: a história da humanidade. É compreensível que Moisés fala duas vezes sobre a criação do homem. Ele tinha de falar obrigatoriamente sobre o homem como a obra-prima da criação, ainda no primeiro capítulo. Agora, fechando o primeiro tema com as palavras: "Tal foi a história do céu e da terra ao serem criados," Moisés por necessidade recomeça a história da humanidade a partir da criação do primeiro homem e sua mulher, o que é narrado no segundo capítulo; também aqui é mostrado como era a vida no Éden (paraíso). O terceiro capítulo narra sobre o pecado original e a perda do paraíso. Nestas narrações, além do sentido direto, temos ainda um sentido oculto e hoje somos incapazes de saber, onde é narrado aquilo que realmente aconteceu e onde a narração é simbólica. Por isso, não temos direito de modificar estes relatos de Moisés a nosso bel-prazer. Sabemos somente, que estes acontecimentos têm um enorme significado.
O símbolo é uma expressão condicional, conveniente porque é pitoresco e por isso facilmente lembrado e não necessita de muitas palavras para expressar o pensamento; ao mesmo tempo fica gravada a idéia do acontecimento. O símbolo nos dá a possibilidade de maior aprofundamento no significado. Assim, são João de Kronstadt, ao citar do salmo as palavras "as Tuas mãos me criaram" explica: "Tuas mãos — O Filho e o Espírito Santo." A palavra "as mãos" nos lembram da Santíssima Trindade. Um pensamento parecido lemos no santo Irineu de Lion (século II): "O Filho e o Espírito Santo são como as mãos do Pai."
Precisamos dividir o símbolo bíblico, a figura bíblica, com o seu sentido oculto do mito. Na Bíblia não existe a mitologia. A mitologia compreende politeísmo, muitos deuses, a personificação dos fenômenos da natureza e nesta base cria narrações fantasiosas. Temos o direito de dizer que a Bíblia desmistifica tudo, ela é dirigida contra os mitos.
Algumas pessoas podem dizer que na mitologia também existem símbolos. Sim, realmente, existem. Mas a contradição está no fato de que Moisés usa os símbolos para falar da verdade, muitas vezes profundamente mística; as narrações mitológicas representam fantasias, sugeridas pelos fenômenos da natureza. Aqui temos o símbolo da verdade, lá — os símbolos de pura fantasia. Para o cristão ortodoxo, esta é a diferença entre um ícone e um ídolo: o ícone representa aquilo que realmente existe; ídolo — representação de um ser fantasioso.
Lá, onde precisa ser descoberta a verdade, existem mais símbolos. Assim, por exemplo, é a narração da criação da mulher da costela de Adão.
São João Crisóstomo diz: "E tirou, dizem, uma de suas costelas." Não entendas estas palavras ao pé da letra, mas saiba, que estas palavras vulgares são adaptadas à fraqueza humana. Se as Escrituras não tivessem usado estas palavras, como poderíamos conhecer o mistério? Não vamos nos deter só nas palavras, mas aceitaremos tudo com o devido respeito a Deus. A palavra "tirou" e outras parecidas foram usados por causa da nossa fraqueza."
Nós compreendemos a conclusão moral desta narração, indicada pelo apóstolo Paulo, que a mulher foi chamada para se submeter ao marido: "a cabeça da mulher é o homem; a cabeça do homem é Cristo...; não foi o homem criado da mulher, mas a mulher criada do homem." Mas porque Moisés se detêm no modo da criação da mulher? Com certeza, ele visa defender a consciência dos judeus das fantasias de mitologia, e em particular da mitologia da Mesopotamia, a antiga pátria dos hebreus. Estes contos são sujos e tentadores no sentido moral, dizendo que o mundo dos deuses, o mundo dos homens e o mundo dos animais se misturam: os deuses e as deusas se juntam aos homens e aos animais. Vemos a alusão a isto nas representações de touros e leões com cabeças humanas, tão difundidas na escultura caldéia, mesopotamica e egípcia. A narração da Bíblia sobre o modo de como foi criada a mulher fortalece o pensamento de que a humanidade tem o seu começo completamente independente e guarda pura a natureza física do homem, que é diferente tanto dos seres do mundo superior, tanto do mundo inferior, animal. Isto é comprovado pelas seguintes palavras: "Não é bom que o homem esteja só. Vamos fazer-lhe um auxiliar que lhe convenha." E conduziu à presença de Adão todos os animais, e Adão lhes deu os nomes, — "para o homem, todavia, não se achou um auxiliar que lhe conviesse." Aí, Deus mandou sono para Adão e de sua costela criou-lhe a mulher.
Assim, seguindo a verdade de unidade de Deus, foi estabelecida a unidade e a independência, originalidade do gênero humano. O Apóstolo Paulo começa a sua pregação no areópago de Atenas com as seguintes palavras: Deus é único — e "Se de um só indivíduo Ele fez todo o gênero humano para que os homens povoassem toda a face da terra, e fixou aos povos os tempos que lhes eram destinados e os limites de suas moradas" (Atos 17:26). A narração sobre a criação do homem no livro de Gênesis é um golpe duro sobre as imagens politeístas e mitológicas, igual ao golpe referente à criação do mundo.
Os primeiros homens viveram no paraíso, no Éden, num jardim maravilhoso. O despertar do homem, na narração de Moisés, é iluminado com os abençoados raios do sol. Agora, sob a influencia dos achados nas grutas, o homem antigo é representado como nas trevas, que nos deixa com uma impressão repulsiva de sua aparência, parecida com as feras, com o maxilar inferior proeminente, com ameaça ou medo nos olhos, com um porrete nas mãos, caçando a carne crua. Porém, a Bíblia nos mostra o homem como uma criação Divina nobre, mesmo que no seu aspecto espiritual ainda infantil, com o rosto claro e límpido, e não escuro e sombrio. O intelecto dele era sempre superior ao resto das criações. O dom da palavra lhe deu a possibilidade de um maior desenvolvimento de sua natureza espiritual. A riqueza das plantas e ervas lhe deu uma farta comida. A vida num clima favorável não representava muito trabalho. A pureza moral lhe proporcionava uma paz interior. O processo do desenvolvimento poderia tomar um rumo mais alto, desconhecido por nos.
Ao mesmo tempo, no mundo animal, que é inferior ao do homem, temos tantos animais e aves agradáveis, harmoniosamente criados, mostrando a sua beleza e graciosidade, e ao mesmo tempo, tão meigos, preparados para afeição, ao apego, à confiança e, principalmente, prontos ao nos servir desinteressadamente; então porque, se no mundo vegetal temos tanta harmonia e beleza, podemos dizer até competição em servir ao homem com os seus frutos — porque somente o homem da antigüidade é representado sem tudo aquilo belo e atraente que temos no mundo animal e vegetal?

A bem-aventurança do homem e a sua proximidade a Deus são inseparáveis. Deus é meu manto e minha proteção — de quem posso ter medo?
Deus "passeava no paraíso," tão próximo era Ele ao Adão. Mas, para sentir a proximidade de Deus e reconhecer a Sua proteção, o homem precisa ter a consciência limpa. Nos perdemos a consciência limpa e o sentido de proteção. Os primeiros homens pecaram e já se escondem de Deus. "Adão, onde estás?"  "Ouvindo o rumor de Teus passos no Jardim, tive medo, porque estava nu, e me escondi."
Deus é onisciente e Ele é sempre perto de nós, — diz a palavra de Deus, — somente a sensação desta proximidade é obscurecida por nossos pecados. Porém ela não se extingue por completo; durante todos os séculos da humanidade esta sensação vivia e vive nos homens santos. Sobre Moisés sabemos, que Deus falava com ele "de frente para frente," como com algum amigo. "Senhor, estás perto" lemos nos salmos. "A minha alma está em Deus como um peixe na água, ou uma ave no ar, de todos os lados e sempre está rodeada por Ele; vive Nele, se movimenta por Ele, Nele descansa, Nele tem a sua amplidão," diz são João de Kronstadt. E num outro lugar ele raciocina: "O que significa a aparição de três Peregrinos ao Abraão? Isto significa que Nosso Senhor, na Sua Trindade, como que constantemente peregrina pelo mundo e vigia tudo, que lá acontece, e aos Seus servos, que são vigilantes e atenciosos para com a sua salvação e procuram por Ele, vem Ele mesmo, os visita e conversa com eles, como com os Seus amigos: "e viremos a ele e nele estabeleceremos morada" (João 14:23); os maus homens serão queimados com fogo.
Quando foi perdida a proximidade, foi perdida também a beatitude. Com a perda da beatitude veio o sofrimento. A essência da narração de Moisés sobre o pecado original é a mesma que na parábola sobre o filho pródigo. O filho se afastou do pai, se escondeu dos olhos dele, tentado pelo deleite da vida em liberdade. Mas no lugar de deleite, recebeu um pouco de vagens, comida dos animais. Isto mesmo aconteceu com Adão e Eva: como conseqüência do pecado veio o sofrimento. "Tornarei penosa a tua gravidez, e entre penas darás à luz teus filhos..." "Produzirá para ti espinhos e abrolhos, e viverás das ervas do campo; com o suor de teu rosto, comerás o pão; até que voltes ao solo, donde foste tirado. Porque és pó e em pó tornarás" (Gênesis cap. III)
Comer do fruto proibido — parece uma coisa tão insignificante — e quais as conseqüências e qual o castigo? Mas, na vida tudo começa sempre assim: de uma coisa insignificante e pequena cresce uma coisa grande. O desmoronamento da neve nas montanhas começa com um pequeno empurrão. O rio Volga começa como uma pequena fonte, e o rio Hudson — um rio muito largo, tem o início numa pequena "Lágrima das nuvens" nas montanhas.
A mais simples observação das coisas nos mostra que os vícios levam ao sofrimento e que o homem se castiga a si mesmo. Mesmo que a morte e outras dificuldades são enviados por Deus, devemos reconhecer, que a maioria dos sofrimentos do homem é criada pela própria humanidade. Assim, temos as mais cruéis guerras, com a maneira mais desumana de tratamento dos vencidos, a qual, na realidade, constitui toda a historia da humanidade, e as maiores atrocidades durante os tempos da paz, infligidos pelo homem ao homem: isto inclui a escravidão, o jugo dos forasteiros e a mais variada violência, que são a conseqüência não só do egoísmo e da cobiça, mas de um prazer demoníaco em ver o sofrimento dos outros — enfim tudo, que um ditado antigo diz: o homem é como um lobo para o homem.
Se não tivesse o pecado original, será que o homem seria absolutamente feliz na terra? Será que não existiria nada de desagradável, nenhuma infelicidade, nenhum acaso? Pelo que podemos perceber, a Bíblia não nos fala disto. Onde há luz, há também as sombras, onde há alegria, deve haver tristeza. Mas que tristeza pode demorar por muito tempo, quando Deus é perto? Se Ele manda os Seus anjos guardar a Sua melhor criação, que leva o Seu semblante? A Igreja diz, que o homem no paraíso era predestinado para imortalidade, não só espiritual, como também material. Mas, mesmo se materialmente ele fosse mortal, onde estaria a dor da perda, se ele sentisse com toda a sua alma a sua eternidade espiritual, se ele soubesse e sentisse, que isto seria somente uma passagem para uma vida melhor e mais perfeita?

Esta é a mais ampla pergunta, com o mais difícil problema do ponto de vista religioso — o sofrimento no mundo. Porque a lei da constante renovação da vida — a maravilhosa lei da vida do mundo — é ligada aos sofrimentos? Será que é inevitável a aniquilação mútua das espécies, será que é inevitável que uns são devorados pelos outros para o sustento da vida, o medo dos fracos diante dos fortes, a vitória da força bruta no mundo animal? Será que a luta mútua é a eterna lei da vida?
A Bíblia não nos dá nenhuma resposta direta. Porém, podemos achar algumas respostas indiretas. Eis o que ela diz sobre a primeira lei da nutrição, dada por Deus aos homens. Deus destinou aos homens os frutos e as sementes de plantas (Gênesis 1:29). E sobre os animais Ele diz: "E também a todos os animais da terra, a todas as aves do céu e a tudo que se move sobre a terra, na qual existe sopro de vida, dou, para que se alimentem, as plantas verdes. Deus viu tudo o que fizera, e eis que estava muito bom" (Gênesis 1: 30-31).
Mas, aconteceu o pecado no mundo. Aconteceu uma plena degradação do homem antes do dilúvio. Isto se deu também no mundo animal. "Viu Javé que grande era a maldade do homem sobre a terra e que no seu coração não formava, a todo instante, senão maus desejos." A lei da colaboração deu lugar à lei da luta. E o apóstolo Paulo diz: "Em contínuos anelos a criação aguarda por esta manifestação dos filhos de Deus. Pois, as criaturas ficaram sujeitas à degredação, não por sua vontade, mas em razão de quem as sujeitou, na esperança de serem libertadas, também elas, da escravidão da corrupção, para participarem da liberdade gloriosa dos filhos de Deus. Bem sabemos que a criação inteira geme até agora, suspirando, transida de dor, por novo nascimento. Mas não somente ela, senão também nós mesmos, que possuímos as primícias do Espírito, gememos em nosso interior, esperando a filiação adotiva, a redenção de nosso corpo" (Romanos 8:19-23) Isto significa, que a nossa lamentação não é eterna e sendo assim, a lei do mais forte e a lei da luta também não o são. Será que a lei da vida é incontestável? Será que não percebemos, que no mundo animal tudo que é feroz, bestial, terrível na sua força some mais cedo do mundo do que aqueles animais dóceis, indefesas, que continuam vivendo e se multiplicando? Será que isto não indica também ao homem não contar com a lei da força? O santo profeta Isaías nos fala sobre o futuro desta lei, profetizando sobre o futuro — sem dúvida referindo-se ao mundo que não seja mais pecaminoso — quando "pastarão junto lobo com o cordeiro e o lince dormirá junto com o bode."
A história do aparecimento do mal no mundo — do mal moral e sofrimentos espirituais e físicos, descrita no terceiro capítulo da Gênesis desfere um novo, terceiro golpe na mitologia pagã. Conforme a mitologia, as paixões e os vícios, e junto com eles o sofrimento, são inerentes aos deuses; eles lutam entre si, traem, matam; existe uma religião que afirma que há deus do bem e deus do mal; mas, seja como for, o mal existe desde o começo; e daí o sofrimento é a lei normal da vida; e não há caminho para uma verdadeira perfeição moral. Mas não é isto que a Bíblia diz. Deus não fez o mal. Tudo que Ele fez, por sua natureza "era bom." O pecado entrou na vida através da tentação: por isso, ele se chama de pecado, isto é, erro na direção, perda do rumo, desvio da vontade para o lado errado. Junto com o pecado entrou o sofrimento.
O autor da "Sabedoria de Salomão" diz: "Deus não fez a morte, nem se alegra com a ruína dos vivos. Criou tudo para que tudo subsista: as criaturas do mundo são salutares, nelas não há mortífero veneno, nem domínio da morte na terra" (Sabedoria 1:13-14) "Deus criou o homem para a vida eterna e fê-lo a Sua própria imagem: pela inveja do diabo a morte entrou no mundo; provam-na os que são do partido dele" (Sabedoria 2:23-24).
Mas a lei moral não é destruída pela queda do homem. Ela continua acesa, e a diferença entre o bem e o mal não foi perdida. O homem tem a possibilidade de voltar à riqueza perdida. O caminho é aquele relatado no terceiro capítulo da Gênesis, onde é relatado o banimento do paraíso, a tristeza, que leva à purificação moral e ao renascimento. Daí, a partir dos últimos versículos do terceiro capítulo de Gênesis se abre, à distância, o radiante horizonte da salvação do homem, através da vinda de Salvador, do mal moral e com ele do sofrimento e da morte.
Assim, a história do pecado original tem um significado muito importante para a compreensão de toda historia da humanidade, pois ela se encontra em contato direto com o Novo Testamento. Aqui temos um paralelo entre dois acontecimento — o pecado do Adão e a vinda do Filho de Deus para a terra; ela é sempre presente no pensamento cristão, tanto na sua totalidade, como nas particularidades. Cristo é chamado de Segundo Adão, a cruz é contraposta à arvore do pecado. Até as tentações de Cristo pelo diabo no deserto nos lembram parcialmente a tentação da serpente; lá — comam a fruta e sejam como deuses; aqui — se és Filho de Deus, manda as pedras se transformarem em pão. Para a história do pecado original os padres preferem a compreensão ao pé da letra. Mas até aqui o elemento real da compreensão direta se entrelaçou com o elemento místico espiritual a tal ponto, que ficou indivisível. Assim são, por exemplo, as denominações místicas da "arvore da vida" e da "arvore da ciência do bem e do mal." E a Igreja, alegrando-se, olha para aquele mesmo "Paraíso antigo," contempla o querubim, colocado lá na porta do Paraíso no banimento de Adão, que já deixou de guardar a árvore da vida e a espada ardente já não impede a entrada no paraíso. E o ladrão que se arrependeu na cruz ouve as palavras de Cristo Crucificado: "Hoje estarás Comigo no Paraíso."

O livro de Gênesis nos fala muito pouco sobre o começo da vida humana. O período até o dilúvio, após a história de Caim e Abel, é quase limitada a genealogia, a nomes. Computando os anos de vida dos patriarcas, recebemos um período de uns 1600 anos. Esta história de tantos séculos é toda relatada somente no capítulo 4. Isto nos demonstra de como Moisés é cauteloso, como ele protege o seu relato das narrativas populares e mitológicas. É óbvio, que a fonte da relação genealógica eram as inscrições da Mesopotamia. A humanidade, desde a sua alvorada, protegeu com grande zelo a sua história. As tribos guardavam a memória de seus antepassados, mas isto só se dava através uma relação de nomes e anos de vida! Hoje nas escavações da Mesopotamia são achados inscrições cuneiformes, que remontam até terceiro milênio ante Cristo, o que quer dizer, alguns séculos antes de Abraão. Mas a antigüidade visava preservar a memória sobre os grandes antepassados também além de inscrições, erigindo para isso magníficos túmulos e outros monumentos. Após o minucioso relato sobre o dilúvio, o livro de Gênesis continua a relação da genealogia, novamente de uns 2.000 anos. A relação dos patriarcas até Abraão, de acordo com fontes para nos desconhecidas, é também rigorosa. Estes esquemas são interrompidos por duas narrações: 1) sobre o dilúvio e Noé e seus filhos, e 2) sobre a construção da torre de Babel e a dispersão dos povos.
Se Moisés se deteve na história do dilúvio, evidentemente ele tinha dados para isso. O dado principal era a tradição do dilúvio entre o povo hebreu daquela época. Ela foi trazida pelos hebreus até o Egito e lá cuidadosamente guardada. Ao mesmo tempo, entre o povo egípcio o relato sobre o dilúvio já foi perdido. Porém podemos encontra-lo, com detalhes mitológicos, nas tabuinhas da Mesopotamia (Suméria, um povo não hebreu, na biblioteca de Assurbanipal). Em linhas gerais, este fato confirma a memória sobre o dilúvio na Mesopotamia. Levando em conta a língua daquela época, a limitação da compreensão das palavras "o mundo inteiro," podemos admitir que a expressão "o mundo inteiro... todos os animais" têm como limite o país habitado. Naquela época tudo aquilo, que estava diante dos olhos, era tido como "tudo, todos," no sentido relativo. Até na época do Império Romano e do começo do cristianismo, "o mundo inteiro" significava aquela parte do mundo, que era conhecida e explorada. Porém isto é somente uma das hipóteses sobre o dilúvio.
O relato de Moisés sobre o dilúvio era sujeito a três idéias mestres, evidentes em toda a Bíblia: a) a permanência do mundo sob a vontade de Deus, b) as tragédias dos povos como castigo por sua depravação e c) escolha de uma tribo, mais tarde, um povo, como guardião da verdadeira fé.
A narrativa sobre uma língua única entre os povos, sobre a construção da torre de Babel e sobre a dispersão dos povos é um outro pormenor entre o curto esquema da genealogia. A arqueologia moderna confirma a existência da torre de Babel.
A partir do tempo de Abraão, o livro de Gênesis começa um sistemático histórico relato. Aqui começa a história do povo hebreu. Ela continua nos outros quatro livros do Pentateuco, e depois nos livros históricos do Velho Testamento, parcialmente nos livros dos profetas e no fim se aproxima aos tempos do Novo Testamento.
A arqueologia nos proporciona um rico material paralelamente com a história bíblica, a partir do tempo de Abraão. Ainda umas poucas décadas atrás a crítica bíblica achava que a Gênesis não passava de uma coletânea de piedosas lendas. As escavações contemporâneas demonstram a veracidade da Gênesis. As escavações, uma após a outra, revelam a veracidade das narrativas bíblicas. Elas demonstram a antigüidade dos nomes e dos costumes, mencionados por Moisés. Assim são os nomes de Abraão (Abam-ram), Jacó (Jacó-El): eles são encontrados como nomes próprios na antiga Mesopotâmia. Os nomes dos ancestrais e familiares de Abraão figuram como nomes das cidades, pois as cidades recebiam nomes de seus fundadores. Das cidades, por sua vez, eles eram transferidos para as pessoas descendentes delas. Assim, entre os nomes das cidades temos: Farra (pai de Abraão), Seruc (avô de Farra), Falec (seu ancestral), Nahor e Aran (irmãos de Abraão), e Harran — lugar na Mesopotâmia, de onde eles saíram.
As "tabuinhas de Nuza" encontradas na Mesopotâmia vertem a luz sobre os costumes daqueles tempos, por exemplo, o fato de que Abraão, antes do nascimento de Isaac, queria adotar uma pessoa da família — Eliazar. Outros fatos: a venda de primogenitura pelo Esau, a benção dos patriarcas antes da morte, a história com os ídolos (levados pela Raquel da casa do seu pai Labão). Naturalmente, as épocas mais recentes dão mais material arqueológico. Também, são lógicas as perplexidades na coordenação dos detalhes. Porém verifica-se que "A Bíblia tinha razão" (nome de um livro alemão). Um dos arqueólogos americanos, que estudam a Bíblia disse: "Sem dúvida alguma, agora a arqueologia vai comprovar a veracidade histórica do Velho Testamento."
Os livros históricos do Velho Testamento, bem como os cinco livros de Moisés sobre as leis, demonstram a conexão entre a vida piedosa de um povo e o seu bem-estar, por outras palavras, de que as calamidades são sempre a conseqüência da apostasia e da degradação moral. Por isso, até na época de cristianismo a historia do Velho Testamento permanece atual e a Igreja usa muitos materiais de lá para mostrar exemplos. Porém aqueles livros históricos, onde o elemento nacional judeu ofusca a idéia religiosa (Ester, Judite), não são usados pela Igreja durante as missas. Assim, o material histórico do Velho Testamento não tem valor como tal, pois "passou o que era antigo" (2 Cor. 5:17), mas tem valor como moralizador.
O profeta Moisés e os outros escritores sagrados falam sobre os inúmeros milagrosos acontecimentos, que demonstravam a força de Deus. Mas raramente eles usam a palavra "milagre." Eles demonstram, que toda a história se passa diante dos olhos de Deus, que todos os acontecimentos somente nos parecem divididos entre fenômenos comuns e incomuns, naturais e milagrosos. Para uma pessoa fiel, todo milagre é somente como um rasgo na cortina, atrás da qual acontece o constante milagre da providência Divina e é escrito o texto do destino de cada um de nós.

Os livros sapienciais constituem o terceiro grupo dos livros do Velho Testamento. Eles ensinam ao homem construir a sua vida terrena de tal forma, que ela seja bendita por Deus e por homens, que ela proporcione bem-estar e paz de espírito. Esta vida vem da sabedoria, que emana de Deus.
Quando Salomão, começando o seu reinado, rezou e fez as suas oblações, Deus lhe apareceu durante a noite e disse: "Peça o que queres receber." Salomão pediu a Deus só uma coisa: sabedoria e conhecimento, para dirigir o povo de Deus. E Deus disse ao Salomão: porque não pediste riqueza, bens, gloria, vitorias, uma vida longa, e pediste a sabedoria e o conhecimento, receberás a sabedoria e o conhecimento, e as riquezas, os bens e a glória te darei tão grandes, como ainda nenhum rei tinha e nunca mais terá depois de ti
Os livros sapienciais são repletos de conselhos práticos de como levar a sua vida particular e a vida de toda a família sabiamente, temendo a Deus, na verdade, na honestidade, no trabalho, na moderação e como ser útil na vida social. Estes conselhos são muito instrutivos, práticos de verdadeiros. Na construção das frases há muitas metáforas, vivacidade e perspicácia, apesar de que algumas opiniões foram dadas num tempo muito remoto e não correspondem aos nossos costumes. A tendência prática da vida constitui o traço característico da sabedoria sapiencial do Velho Testamento.
Porém seria um grande erro pensar que a sabedoria bíblica é a sabedoria do bem-estar terreno. A Bíblia vê a verdadeira sabedoria na devoção a Deus mesmo nos sofrimentos mais atrozes, nos sofrimentos sem culpa, a sabedoria na aceitação dos caminhos desconhecidos de Deus. "Nu sai do ventre da minha mãe, nu a ele retornei para além. Javé deu, Javé tirou: bendito seja o nome de Javé,... se recebemos o bem de Deus, como não receber igualmente a desgraça?" (Jô 1:21, 2:10). Esta é a sabedoria do justo Jô. Mas não há sabedoria nas palavras dialéticas e lógicas de seus amigos, e não há justamente porque eles orgulhosamente acham que compreendem os caminhos de Deus; elas contêm aquilo que podemos chamar de racionalismo sobre o fundo religioso. Eles foram aconselhados através Jô de pedir perdão a Deus.
O bem-estar, a riqueza, a fama, a glória são muito atrativos, mas não faz sentido se prender a isto, eis a sabedoria final de Salomão. A morte espera por todos nós, e aqui se verifica que tudo isto não passa de aparências, de vaidades — "Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade!" (Eclesiastes 1:2)
Na vida existe algo mais precioso, mais sublime, mais digno de louvor, que emana da sabedoria. Isto é a tendência de conhecer as obras de Deus, o conhecimento da natureza, o conhecimento puro: "Ele me deu ciência exata do que é que me fez conhecer a estrutura do universo e a força dos elementos, o começo, o fim e o meio dos tempos o alternar-se dos solstícios e a mudança das estações, os ciclos dos anos e as posições dos astros, as distintas naturezas dos animais e os instintos das feras, o poder dos espíritos e os pensamentos humanos, a variedade das plantas e as virtudes das raízes" (Sabedoria 7:17-20). "Ama alguém a justiça? As virtudes são fruto de seus esforços, ela ensina temperança e prudência, como também justiça e fortaleza, os bens mais úteis na vida humana. Deseja alguém uma rica experiência: ela conhece o passado, presume o futuro, penetra as máximas, resolve enigmas, prevê sinais e prodígios, a sucessão das épocas e dos tempos" (Sabedoria 8:7-8). Nestas palavras vemos a aceitação dos direitos da ciência em suas muitas ramificações.
A posse desta sabedoria não é um mérito pessoal, mas é uma dádiva de Deus. "Eu rezei" — diz o autor da Sabedoria de Salomão: "Ele me deu a ciência exata. O que há de oculto e manifesto, eu o conheci; artesã de todas as coisas, ensinou-me a sabedoria. Nela há um espírito inteligente, santo, único em seu gênero, múltiplo, sutil, ágil, perspicaz, puro, claro, impassível, amante do bem, penetrante, incoercível, benfazejo, amigo dos homens, firme, seguro, despreocupado, tudo pode e abrange, com o olhar, penetra todos os espíritos, os inteligentes, puros e sutis... Ela é reflexo da luz eterna, espelho sem mancha do agir de Deus, a imagem de Sua bondade. Sendo uma só, tudo pode; sempre a mesma, tudo renova. Passa, através dos séculos, para as almas santas, fazendo-as amigas de Deus e dos profetas: Deus ama a quem vive em sabedoria" (Sabedoria 7:21-23; 26-28).
Não é de se admirar, que tal exemplo de Sabedoria perfeita como nos livros sapienciais do Velho Testamento é atual também na época de cristianismo, principalmente lá, onde ela é demonstrada como "presidindo a próprio Deus." "Criou-me Javé no início de suas vias, no prelúdio de Suas obras, desde sempre. Desde a eternidade fui fundamentada, desde o começo, antes da origem da terra. Quando ainda não existiam os abismos, no entanto, eu já tinha sido concebida. Antes de serem implantados os montes e antes das colinas, eu já fôra gerada, antes de haver a terra e as campinas e os primeiros elementos do pó do mundo. Ao firmar Ele os céus: estava eu lá; ao traçar Ele um círculo à face do abismo e ao condensar as nuvens nas alturas e quando determinou as fontes do abismo e quando assinalou limites aos mares e as águas não ultrapassavam as bordas, estava ao Seu lado, como arquiteto, fazendo Suas delícias, dias após dias, folgando-me todo o tempo em Sua presença, divertindo-me sobre a face da terra, achando o meu prazer nos filhos dos homens..." "Quem me encontra, acha a vida e há de obter o benefício de Javé" (Provérbios 8:22-35).
Aqui a Sabedoria é representada como um ente Divino; podemos achar também outras expressões parecidas quando se trata de Sabedoria. Sob a influencia desta imagem na filosofia religiosa, tanto no começo do cristianismo, como na idade média e agora, na idade moderna, surgiu o pensamento que tentava penetrar na teologia, de que sob a palavra "sabedoria" é entendida uma força Divina pessoal, hipostase, criada ou não, talvez a alma do mundo, a "Divina Sofia." Os ensinamentos sobre a Sofia se acham nas obras de Vladimir Soloviev e do padre Paulo Florenski, do padre S. Bulgakov. Eles têm a sua própria filosofia e querendo justifica-la pelas Escrituras, não tomam em conta o fato de que no Velho Testamento é comum personificar as idéias. O autor dos Provérbios adverte que ao lê-las será necessário "entender as máximas, frases obscuras e os ditos dos sábios e seus enigmas" (Provérbios 1:6), isto é, não interpretá-las ao pé da letra.
Porém lá, onde a Sabedoria é representada muito expressivamente, como ente pessoal, como Sabedoria hipostásica, O Novo Testamento a representa como o Filho de Deus Jesus Cristo, "Força Divina e Sabedoria Divina," como o diz o apóstolo Paulo (1 Cor. 1:24). Este significado é dado, por exemplo, à leitura do livro de Sabedoria: "Erigiu a Sabedoria sua casa e construiu suas sete colunas" (Sabedoria 9:1). Assim o autor transporta o nosso pensamento diretamente para o Novo Testamento, à pregação do Evangelho, ao mistério da Eucaristia e para a edificação da Igreja de Cristo; aqui o Velho Testamento entra direto no Novo Testamento.

Entre os livros sapienciais temos um livro todo especial, que é o livro das orações. Quem dos cristãos, não só ortodoxos, mas de qualquer religião ou seita não conhece o Livro dos Salmos e não conhece pelo menos um salmo, de penitencia, o salmo 50? Eis o livro para todos, para todo tipo de oração, em todos os casos da vida: na tristeza, num estado sem saída, na enfermidade, nas calamidades pessoais e de todo povo, nas lágrimas de penitencia depois de uma queda, e na alegria após termos recebido o que pedimos e na necessidade de agradecimento, como testemunha de fé, na devoção, no fortalecimento da esperança e na pura glorificação de Deus. Os salmos contêm muitas meditações, muitas referências à própria alma, muitos consolos. Por isso não é de se admirar que este livro é tão usado na Igreja de Cristo. Não há nenhuma missa sem salmos, alguns são lidos várias vezes ao dia. Além disso, o livro inteiro é lido na igreja na forma de "kafismas," um salmo após o outro, pelo menos uma vez por semana. E ainda, nas missas ortodoxas há muitos versículos dos salmos, como "prokimenons," nos aleluias, versículos no "Deus Senhor"("Bog Gospod"), como partes de "stikhiras" e outros: nos quais pedimos, nos arrependemos e glorificamos. As orações cristãs contêm muitos expressões tiradas dos salmos. O Livro dos Salmos é completamente cristianizado. Isto significa, que a Igreja interpreta tudo no sentido cristão, e sentido do Velho Testamento é delegado ao plano posterior. As palavras "Levanta, ressuscita, Senhor" se referem à ressurreição de Cristo; as palavras sobre o cativeiro são entendidos no sentido de cativeiro do pecado, os povos inimigos de Israel — no sentido de inimigos espirituais, e a palavra Israel — no sentido de povo da Igreja; o apelo à matança dos inimigos — no sentido de luta contra as paixões; a salvação do Egito e da Babilônia — como salvação em Cristo. Quase que em cada versículo dos salmos a Igreja acha o reflexo do Novo Testamento, algum acontecimento ou pensamento, a profissão da fé, da esperança e do amor. Isto nos foi ensinado pelos próprios Apóstolos, pois nas suas epístolas eles usavam os versículos dos salmos no sentido do Novo Testamento.
Alguns salmos têm umas expressões confusas, não só nas nossas traduções, mas até no texto hebreu e na sua tradução para o grego, mas contêm também versículos maravilhosos na sua expressão. Mas quantos salmos existem que são absolutamente compreensíveis, espelham o nosso estado espiritual e dão a plena interpretação dele, são uma oração que parece ter sido criada nos nossos tempos e para nós, e não nos tempos tão remotos!
Entre os livros sapienciais há um livro sobre o amor. Este é o "Cântico dos Cânticos" sobre o amado e a amada. A primeira vista este Cântico pode parecer tão somente uma canção lírica e assim ele é interpretado por pessoas liberais, que não seguem a interpretação dos Doutores da Igreja. Primeiro precisamos ler os profetas para entender, que no Velho Testamento a palavra "amado — amada" se refere à ligação entre Deus e o seu povo eleito e se este livro foi aceito entre as escrituras sagradas dos judeus, isto foi porque — seja qual fôr a sua primeira significação — a tradição do Velho Testamento a entendia no seu sentido sublime simbólico. No Novo Testamento o apóstolo Paulo usa este mesmo símbolo, porém sem a sua forma poética, quando fala sobre o amor de homem e mulher e o compara com o amor de Cristo para com a Igreja. Nos hinos da Igreja muitas vezes ouvimos as palavras sobre o noivo e a noiva, como o símbolo de um amor ardente para com o nosso Salvador: "Jesus, a Tua cordeira está clamando em voz alta: amo Te, meu Esposo e ao procurar-Te, sofro e me crucifico..." ouvimos no tropário à mártir. Este mesmo sublime arrebatamento de alma ao Cristo podemos encontrar nas obras de ascetas cristãos.

A queda dos reinos de Israel e Judéia, e principalmente a destruição de Jerusalém e a escravidão da Babilônia eram golpes terríveis para o povo hebreu, abalo sem igual. Este era o juízo de Deus pela traição das leis e pela profunda corrupção. Para o povo hebreu começou uma noite longa e, parecia, sem esperança e sem fim. E justamente neste período aparece uma plêiade de consoladores nestes seus sofrimentos. Desmascaramento e consolo — eis duas coisas de suas palavras e de seus livros proféticos, que formam um grupo separado, último, dos livros do Velho Testamento.
Os desmascaramentos proféticos precedem os últimos golpes sobre o destino do povo hebreu, quando ainda havia restos de prosperidade e a consciência do povo ainda dormia. As palavras dos profetas são incomparáveis por sua força e por sua veracidade sem piedade.
"Ah! nação pecadora, povo cheio de crimes, geração malfeitora, filhos pervertidos! Abandonaram Javé, desprezaram o Santo de Israel, desviaram-se d’Ele. Onde vos ferir ainda? Por que acumulais traições? Toda a cabeça enferma, todo o coração abatido, da planta dos pés à cabeça, nada intato: feridas, contusões, chagas abertas, nem curativos, nem bandagens, nem medicamentos com óleo... Cessai de trazer-Me oferendas inúteis: a fumaça Me horroriza. Novilúnios, sábados, assembléias, festa e solenidade, já não suporto nada. Vossas luas novas e peregrinações abomino com toda a alma. Para Mim são um peso, cansado estou de suportá-las!.. Lavai-as (vossas mãos), purificai-vos. Afastai vossa maldade de Minha vista, cessai de fazer o mal! Aprendei a fazer o bem, procurai o direito, socorrei o oprimido, sede justos para com o órfão, defendei a viúva. ‘Vinde e discutamos’, diz Javé. ‘Vossos pecados, embora escarlates, branquearão como neve; embora rubros como púrpura, tornar-se-ão como lã." — assim clama o profeta Isaías (Isaías 1:4-6, 13-14, 16-18).
O profeta Jeremias chora a queda do povo com as palavras ainda mais fortes: "Não depositeis confiança em palavras falazes proclamando: ‘Lá está o Santuário de Javé,’... Como! Roubar, matar, cometer adultério, perjura, queimar o incenso a Baal, seguir deuses estranhos que desconheceis, depois apresentar-se ante Mim, nesse Santuário, que leva Meu Nome e dizer: "Nós estamos salvos!’ para continuar realizando todas essas abominações! Aos vossos olhos este Templo que traz Meu Nome é uma caverna de ladrões?" (Jeremias capítulo 7).
"Quem mudará minha cabeça em águas e meus olhos em fonte de lágrimas? Dia e noite eu choraria os mortos da filha de meu povo! Quem me proverá no deserto um local onde pernoitar? Abandonaria Meu povo e afastar-Me-ia dele. São todos adúlteros, uma súcia de desleais... cada amigo espalha calúnias. Um logra contra o outro e mentem: habituaram sua língua a mentir e cansaram-se de fazer mal... Não os punirei por isso? Eis oráculo de Javé... Farei de Jerusalém um monte de pedras, um covil de chacais; das cidades de Judá, farei solidão onde ninguém habitará. Que sábio entenderá isso?... Assim fala Javé Sabaot: ‘Eia, chamai as carpideiras! Venham!... Entoem rápido uma elegia sobre nos! Corram lágrimas dos nossos olhos! Que nossas pálpebras jorram água!’" (Jeremias, capítulo 9).
Quando aconteceram as desgraças, vieram terríveis calamidades, veio a escravidão de Babilônia e não houve mais nenhum conforto, — estes mesmos profetas se tornaram o único apoio do povo.
"Consolai, consolai Meu povo!’ diz vosso Deus. ‘Falai ao coração de Jerusalém e gritai-lhe: terminou vosso serviço! Foi expiado vosso pecado! Recebeste da mão de Javé dupla punição pelos vossos crimes!’... Sobe uma alta montanha, mensageira auspiciosa de Sião! Eleva fortemente a vez, mensageira auspiciosa de Jerusalém! Eleva a voz sem temer e dize às cidades de Judá: ‘Eis vosso Deus!’ Eis o Senhor Javé que vem com poder: Seu braço dominará tudo! O preço de Sua vitória O acompanha e Seus troféus O precedem. É como o pastor pascendo o rebanho, recolhendo os cordeiros nos braços, colocando-os no regaço, conduzindo ao repouso de suas mães" (Isaías 40:1-2, 9-11).
Assim consola o profeta Isaías, transformando-se, no dias de lágrimas, no profeta da futura libertação e da futura benção de Deus.
"Gritam-me de Seir: ‘Sentinela, que horas da noite? Sentinela, que horas da noite?’ Responde o vigia: ‘Vem a manhã, depois da noite" (Isaías 21:11-12).
Passando a noite, passa a ira de Deus. "Exultem deserto e terra árida, alegre-se e floresça a estepe, tenha flores como junquilhos, rejubile e grite de alegria... Fortalecei as mãos fatigadas, revigorai os joelhos vacilantes. Dizei aos corações pusilânimes: Coragem! Não temais! Vede! É vosso Deus, a vingança que vem, a retribuição de Deus, Ele é que vem vos salvar. Os olhos dos cegos se abrirão, os ouvidos dos surdos se desobstruirão, o coxo saltará como cervo, e a língua do mudo gritará de alegria. A água jorrará no deserto, a torrente na estepe... por ela voltarão os libertos de Javé. Chegarão em Sião, exultantes, com feliz e eterno brilho na face; com eles a alegria e júbilo, dor e pranto já não haverá" (Isaías 35:1-10).
O que é que anima os profetas e lhes dá estas esperanças nas longínquas visões do futuro? Será que eles prevêem a futura grandiosidade do seu povo, suas vitórias e seus triunfos? Ou a futura riqueza e fartura? Não, não é este bem-estar material que lhes chama a atenção. Será que estes homens, que levavam uma vida cheia de sacrifício e mesmo uma morte cruel (o profeta Isaías foi serrado com uma serra de madeira), poderiam desejar ao seu povo somente bem-estar material? Eles previam uma outra revelação Divina: um renascimento espiritual sem igual, os tempos da verdade, brandura e paz quando "o pais está cheio do saber de Javé" (Isaías 11:9). Eles prenunciavam a vinda do Novo Testamento.
"Eis que virão dias — oráculo de Javé — quando concluirei com a casa de Israel e de Judá uma nova aliança: não à guisa que concluí com os seus pais, no dia que os tomei pela mão, para os tirar do Egito, aliança Minha que violaram, embora Eu fosse seu senhor — eis oráculo de Javé. Mas esta será a aliança que concluirei com a casa de Israel depois desses dias,- eis oráculo de Javé; imprimirei Minha Lei no seu interior, no seu coração e escreverei; então, serei seu Deus e serão Meu povo. E já não deverão estimular-se uns aos outros, nestes termos: ‘Reconhecei a Javé’, pois todos desde o menor ao maior deles Me reconhecerão — eis oráculo de Javé -, pois perdoarei sua culpa e do seu pecado já não Me lembrarei." Assim profetisa Jeremias (Jeremias 31:32-34).
A mesma coisa diz o profeta Ezequiel: "Dar-lhes-ei um outro coração e porei um espírito novo no seu interior; tirarei seu coração de pedra e lhes darei um coração novo. Assim, obedecerão às Minhas Leis e Minhas prescrições e as porão em prática. Serão Meu povo e serei para eles seu Deus."
Os profetas falam muito sobre o castigo para outros povos, inimigos de Israel, povos pagãos, que eram instrumento de ira de Deus sobre Israel. Eles também receberão a sua taça de ira. Mas a futura benção de Israel será uma luz também para eles. "Nesse dia, a raiz de Jessé erguer-se-á como o sinal dos povos. Será procurada pelas nações e sua habitação será gloriosa" Isaías 11:10).
O cumprimento destas esperanças está ligado à promessa de um eterno Rei para Israel. "Meu servo Davi reinará sobre eles e haverá para todos um só pastor. Viverão segundo Meus mandamentos... e Meu servo Davi será seu príncipe, para sempre. Concluirei com eles uma aliança de paz, que será uma aliança eterna" (Ezequiel 37:24-26).
Os profetas que consolam o povo direcionam todos os olhares dos seus contemporâneos para este Rei. E eis, como Ele aparece diante dos olhos deles: dócil, bondoso, humilde, justo. "Eis Meu servo eu sustenho, Meu eleito, preferido de Minh’alma. Pus sobre ele o Meu espírito para levar o direito às nações. Ele não grita nem eleva o tom, nem faz ouvir sua voz nas ruas. O caniço tenso não se quebra nem se apaga a chama vacilante. Proclamará com firmeza o direito" (Isaías 42:1-3).
Assim, nestas palavras, foi mostrada nos profetas a vinda do Salvador do mundo. Diante de nos está demonstrada — dispersa em vários lugares das escrituras proféticas, mas muito rica no seu todo — representação dos futuros acontecimentos evangélicos e a própria imagem evangélica do próprio Nosso Senhor Jesus Cristo.
Isaías se refere a Galiléia como o primeiro lugar onde Nosso Senhor habitou o se revelou aos homens: "No passado Ele humilhou o país de Zabulon e o país de Neftali mas no futuro Ele glorificará o caminho do mar, além do Jordão, e o distrito das nações. O povo que ia nas trevas, viu uma grande luz; sobre os habitantes do sombrio país uma luz resplandeceu... Pois um Menino nasceu para nós, um Filho nos foi dado; Ele recebeu o império sobre os ombros e foi-Lhe dado este nome: Conselheiro Admirável, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz" (Isaías 9:1-6).
Eis uma referencia sobre como Deus glorificará Jerusalém: "De pé! Brilha! Eis tua luz! Sobre ti está a glória de Javé enquanto as trevas cobrem a terra e a escuridão, o seu povo! Acima de ti: Javé; Sua glória acima de ti! As nações caminham para tua luz e os reis, para teu clarão nascente" (Isaías 60:1-3).
Eis a profecia do mesmo profeta sobre Cristo, com o qual o Próprio Cristo começou o seu Evangelho na sinagoga em Nazaré: "O espírito do Senhor Javé está sobre Mim, porque Javé Me ungiu. Enviou-Me dar a boa-nova aos pobres e curar os corações aflitos, para anunciar anistia aos cativos e liberdade aos prisioneiros, para anunciar um ano de graça de Javé" (Isaías 61:1-3).
Será, que o profeta prevê, que o Salvador do Mundo não será reconhecido pelos lideres do povo hebreu e também por uma parte do povo? Sim, ele se refere indiretamente a isto no grande capítulo sobre a paixão de Cristo, no capítulo 53 do seu livro, numa das maiores profecias, ou talvez a maior de todas:
"A quem crerá no que ouvimos? A quem foi revelado o braço de Javé Ele cresceu ante nós como rebento, como raiz em terra ressequida. Traspassado pelos nossos pecados, ferido por causa de nossos crimes. O castigo caiu sobre Ele para nossa salvação, nós fomos curados pelas Suas chagas. Andamos desgarrados como ovelhas, cada um seguindo seu caminho: Javé fez recair sobre Ele a iniqüidade de nós todos. Maltratado, Ele se submeteu e não abriu a boca. Como cordeiro levado a matadouro, como ovelha calada ante o tosquiador, Ele não abriu sua boca.
Foi arrebatado por sentença violenta: quem se importa pela sua causa? Foi eliminado da terra dos viventes e ferido de morte por nossos pecados. Deram-Lhe sepultura entre os ímpios e seu túmulo entre os ricos. Mas não cometeu violência alguma, nem houve falsidade na Sua boca" (Isaías 53:1-9).
Os fatos contados no Evangelho comprovam, que o povo hebreu não reconheceu o tempo de sua visitação. Porém, não podemos dizer, que a profecia de consolo não se cumpriu. Pois ninguém pode tirar do povo hebreu a glória que dele nasceu a Santíssima Virgem Maria e que Jesus Cristo era a semente de Davi e que os Apóstolos eram do mesmo povo, e que Jerusalém se transformou para sempre no lugar da glória do Cristo Ressuscitado. De Jerusalém saiu a pregação do Evangelho para toda a terra e é sobre ele que a Igreja canta: "Alegra-te, santo Sião, a mãe de todas as igrejas, morada de Deus: foste o primeiro a aceitar a remissão dos pecados pela ressurreição."
Porém, uma plena explicação porque na Igreja de Cristo entraram principalmente os pagãos, e os judeus permaneceram fora nos dá o apóstolo Paulo em escrituras do Novo Testamento. Lá nos encontramos os esclarecimentos das antigas profecias, e estes esclarecimentos não precisam ser complementados. O apóstolo diz:
"Deus, porém, para manifestar a Sua ira e dar conhecer o Seu poder, suportou com muita longanimidade os objetos da ira votados à perdição. E, para ostentar a riqueza de Sua glória, em objetos de misericórdia, a estes predestinou para a glória, a saber, a nós a quem Ele chamou, não só dentre os judeus, senão também dentre os gentios? Como Ele diz por Oséias: ‘Chamarei de Meu povo a quem não era Meu povo e de amada a que não era amada.’ ‘E onde lhes foi dito: Não sóis o Meu povo, aí serão chamados Filhos de Deus Vivo’. Isaías exclama, referindo-se a Israel: ‘Se o número dos filhos de Israel fôr como a areia do mar, salvar-se-á só o resto,’... Que se segue daí? Que os gentios, apesar de não buscar a justiça, alcançaram a justificação pela fé, ao passo que Israel, colimando uma norma de justificação, não atingiu esta norma. Por que não? Porque pretendiam atingi-la, não pelo caminho da fé, mas pelo das obras. Tropeçaram na pedra de obstáculo, conforme está escrito: ‘Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo. Mas quem crer Nele, não será confundido’... Mas, pergunto: porventura não chegaram eles a ouvir? Certamente, que sim. ‘Por toda a terra se difundiu a vez deles, e até os confins da terra as suas palavras.’ Entretanto, pergunto: Israel acaso não o compreendeu? Já Moisés lhe havia dito: ‘Eu vos tornarei ciumentos de um povo que não é povo; provocarei vossa ira contra um povo insensato.’ E Isaías se atreve a dizer: ‘Fui achado pelos que não Me procuravam; manifestei-Me aos que não perguntavam por Mim.’ A Israel por seu turno diz: ‘Todo o dia estendi Minhas mãos a um povo desobediente e rebelde’" (Romanos 9:22-27. 30-33. 10:18-21).
Isto poderia parecer um destino muito cruel e um veredicto demais rigoroso para um povo que antes era eleito. Mas o próprio apóstolo Paulo se transforma num consolador do seu povo dizendo: "Com efeito não quero, irmãos, que ignoreis o seguinte mistério para não presumirdes aos vossos olhos de sábios: a cegueira abateu-se sobre uma parte de Israel, até ao tempo em que o número completo dos gentios tiver ingressado no Reino de Deus. E então Israel em peso será salvo, como está escrito: ‘De Sião virá o Salvador e desterrará a impiedade de Jacó.’... Deus, com efeito, os fez cair em rebeldia; envolveu todos na desobediência afim de usar misericórdia para com todos. Ó profundidade das riquezas, e da sabedoria e da ciência de Deus! Quão insondáveis são os Seus juízos e imperscrutáveis os Seus Caminhos!" (Romanos 11:25-26. 32-33).

"Passou a sombra da lei pois veio a bem-aventurança" (cântico da Igreja); passou o protótipo, quando veio a Verdade; a sombra do começo do dia se dissipou, quando raiou o sol. Não há mais o sacrifício do Velho Testamento: não só no sentido de que o sacrifício perdeu o seu significado, mas não o há de fato. Não existe mais o sacrossanto, não há mais o velho templo de Jerusalém; não há mais sumos e legais sacerdotes nos judeus.
E veio o Reino de Deus. E o próprio ponto principal da lei do Velho Testamento — os dez mandamentos que foram dados por Deus no monte Sinai, cedem o seu lugar às bem-aventuranças, proferidas num outro monte.
Porém dois antigos mandamentos permanecem inalterados: o primeiro sobre o amor a Deus, com todo o coração, pensamento e alma, e o outro — sobre o amor ao próximo igual ao amor a si mesmo. Eles formam a essência do Velho Testamento; Nosso Senhor disse, que sobre eles foram baseados a Lei e os Profetas. Porém, referindo-se ao amor ao próximo durante a Sua última reunião com os Seus discípulos, Nosso Senhor o elevou num lugar ainda mais alto: "Um novo mandamento vos dou..." Agora, este antigo mandamento foi aumentado pelo amor até a abnegação de si mesmo, até um amor maior aos outros do que a si mesmo.
Durante a Última Ceia Nosso Senhor revelou a verdade misteriosa da constituição do Novo Testamento: "Esta Taça é o Novo Testamento no Meu Sangue." Esta verdade se tornou o ponto principal da sermão dos Apóstolos.
E não obstante de tudo isso o Velho Testamento permanece como aquele fundamento, enterrado no solo, sobre o qual a Igreja de Cristo se fixa e se eleva até aos céus. Os livros da Velha Bíblia são a pedra angular deste fundamento: os livros sobre as leis, os livros históricos, os livros sapienciais e os livros proféticos. Eles contêm grandes profecias sobre Cristo e uma infinidade de protótipos, presságios, reflexos do futuro Novo Testamento. Lá ouvimos as primeiras chamadas à penitencia, à humildade, à bondade que depois foram anunciadas com toda a força pela pregação do Evangelho, lá encontramos inúmeros exemplos de uma vida justa e inúmeras edificações morais. Aqui foram reveladas ao homem as eternas verdades sobre Deus, sobre o mundo, sobre o homem, sobre o pecado, sobre a necessidade de redenção e sobre o vindouro e tão desejado Redentor.
A Bíblia do Velho Testamento, iluminada pela luz do Evangelho e revelada em todo o seu sentido pela Igreja do Novo Testamento, esta Bíblia permanece como patrimônio inalienável e inabalável do Cristianismo.

Folheto Missionário número P77h
Copyright © 2003 Holy Trinity Orthodox Mission
466 Foothill Blvd, Box 397, La Canada, Ca 91011
Redator: Bispo Alexandre Mileant

http://www.fatheralexander.org/booklets/portuguese/old_new_testament_p.htm